Falta mão de obra RS

 

 

Construção civil tem falta de mão de obra      

 


 

Carência atinge o segmento imobiliário residencial e de obras pesadas de infraestrutura

Patricia Comunello



Já está faltando mão de obra para preencher as vagas abertas na construção civil gaúcha. Funções de ferreiro, servente, pedreiro e operador de máquina, e na área técnica e especializada, de engenheiros a topógrafos, registram maior déficit e provocam demora no preenchimento de postos. A carência atinge o segmento imobiliário residencial e o de obras pesadas de infraestrutura, como estradas, transporte público e saneamento. Dirigentes do setor no Estado projetam dobrar a demanda por contratações em 2010, com expansão de 30 mil postos. A Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat) estima em 180 mil novas vagas em toda a cadeia do setor este ano.

Recrutamento de desempregados de outras atividades, como calçadista, formação de novatos no canteiro de obras, atração de aposentados nas funções requisitadas e a tão polêmica importação de trabalhadores são expedientes das empresas para contornar a carência e evitar atrasos na execução dos empreendimentos. O mercado de trabalho formal da construção no Estado cresceu 11% em 2009 e se descolou do desempenho do País, que foi negativo frente a 2008.

O apagão da mão de obra no setor já era prognosticado em 2008. Veio a crise mundial e projetos foram adiados, postergando por alguns meses novas contratações. Mas a reativação mais rápida da atividade, impulsionada pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), projetos para a Copa do Mundo de 2014 e o boom nas moradias, capitaneado pelo programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV), imprimiu maior velocidade ao mercado a partir da metade de 2009. No Estado, a recuperação é mais vigorosa do que no País, segundo a economista da Fundação de Economia e Estatística (FEE) Maria Isabel Herz da Jornada. Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), pesquisados por Maria Isabel para o Jornal do Comércio, apontam alta de 11% no emprego da construção, com saldo positivo de 8.610 postos. O comportamento foi exceção também no confronto com o mercado geral gaúcho, que terminou 2009 com queda de 29,1% nas oportunidades.


Empresas investem em atrativos para conquistar trabalhadores

O problema agora é alimentar o ciclo de ascensão. A dificuldade já atinge a expansão da Trensurb para Novo Hamburgo, orçada em R$ 690 milhões e conclusão em dezembro de 2011. O diretor do contrato pelo consórcio Nova Via, engenheiro Nilton Coelho, descreve o sufoco para preencher funções de topógrafo, engenharia, planejamento e projetos, além de carpinteiro, pedreiro e ajudante. "É difícil conseguir com a rapidez exigida e há falta de gente qualificada. Além disso, mais empreendimentos do PAC vão começar na RMPA", antevê Coelho, citando a construção de BR-448. Para não comprometer prazos, o engenheiro traz profissionais especializados de outros locais do País (20% do total), forma novatos no local da obra, atrai desempregados de outros ramos industriais e capricha nos quitutes para contratar - aumento de 20% nos pisos de cada função, vale-refeição triplo (café, almoço e janta), seguro de vida e participação nos lucros e resultados (PLR).

Como o arsenal não é suficiente, Coelho tem um plano que pode ser acionado a qualquer momento: montar alojamentos para até 140 empregados, a serem recrutados em regiões próximas, como a Serra. Aos 62 anos, o eletrotécnico Jorge Luiz Wagner foi seduzido pela proposta da Nova Via e abandonou a vida de aposentado que levava havia quase dois anos em Porto Alegre. Contou muito sua experiência em projetos e instalações elétricas. "Para receber o dobro do meu vencimento como inativo, vale a pena voltar a trabalhar e percorrer todo dia o trajeto da Capital até Novo Hamburgo", entusiasma-se.

A dupla Leandro Clemente e João Gilberto da Silva migrou do ramo calçadista para aprender a produzir vigas na fábrica que abastece a ampliação da linha de trens urbanos. Silva, 46 anos, era vendedor autônomo ligado a curtumes e vibra com a carteira assinada e PLR do novo emprego. "Quero crescer na construção civil", projeta. Clemente, 30 anos, deixou a rotina de agricultor no interior do Paraná há dez anos, atraído pela pujança do Vale do Sinos. Há dois anos foi demitido devido à falência da indústria calçadista onde atuava, vítima do dólar em baixa.

Para suprir as equipes, o coordenador do conselho de infraestrutura da Federação das Indústrias do RS (Fiergs) e diretor do Sindicato da Indústria da Construção de Estradas, Pavimentação e Obras de Terraplenagem em Geral do RS (Sicepot-RS), Ricardo Portella, acrescenta que as empresas buscam também trabalhadores que abandonaram o setor - ante os 20 anos de paralisia dos projetos - operadores de máquinas na lavoura e até da construção residencial. O diretor lembra que havia 7 mil empregados em 2005. Em 2009, o número saltou para 14 mil. "Devemos chegar a 30 mil na metade de 2010", prevê.


Abordagem chega a ocorrer até mesmo nos canteiros de obras

A pouca oferta de profissionais em algumas funções e baixa qualificação dos candidatos insuflaram a disputa entre as empresas na construção residencial. A abordagem mais agressiva, diretamente no canteiro de obras, cresce e chega a gerar constrangimentos. O diretor da Kaefe Engenharia, Hugo Scipião, condena a postura. Scipião encara a atitude de concorrentes pelos profissionais como de aliciadores. "As empresas ligam para o empregado ou o abordam no local de trabalho, oferecem 30% a 40% a mais de remuneração. É constrangedor", critica o empresário, identificando que a guerra por mão de obra se intensifica desde agosto de 2009. Mestres de obras e engenheiros estão entre os mais cobiçados.

O construtor associa o ambiente ao impulso do programa Minha Casa, Minha Vida. No Estado, os financiamentos aprovados pela Caixa Econômica Federal somaram R$ 3,6 bilhões em 2009, ante R$ 2 bilhões em todas as modalidades no ano anterior. "Incorporadores de fora passaram a atuar aqui, mas não têm estrutura ou precisam subcontratar empreiteiros, o que pressionou mais o mercado", exemplifica Scipião. A Kaefe, com projetos na Região Metropolitana e na Serra, registra carência de carpinteiros em Caxias do Sul. Hoje emprega 500 trabalhadores em cinco projetos nas duas áreas, mas espera elevar para mais 400 até abril. "Estamos vendo contratação de egressos do sistema carcerário e alterando sistema de construção para demandar menos pessoal", informa o diretor, como estratégia ante a escassez.

O presidente do Sindicato das Indústrias da Construção Civil do Estado (Sinduscon-RS), Paulo Garcia, estima que o setor dobrará seu estoque de contratados em 2010. O que demandará mais 15 mil. "Isso é um bom problema", reage Garcia, que aponta como medida urgente a atração de profissionais informais para contratos com carteira assinada. A entidade avalia que de 60% a 70% dos trabalhadores atuem sem registro. Na formalidade, estariam 30 mil na Capital; no Estado, são mais de 90 mil. Segundo o presidente do sindicato, os ganhos, que chegam a dobrar para o informal, são o maior incentivo. "Tem de rever a carga de impostos sobre a carteira assinada."

Os indicadores de preços do setor elucidam o efeito da restrição de pessoal. O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), pesquisado pela Fundação Getulio Vargas (FGV), mostrou alta de 0,6% somente em janeiro na mão de obra. Pesquisa do Sinduscon-RS informa que funções como servente e mestre de obras tiveram alta de 9,26% e 13,6% na hora trabalhada em 12 meses, respectivamente. O Sindicato dos Trabalhadores na Construção Civil da Capital aproveita a vantagem da menor oferta de mão de obra para um mercado mais contratante e lançou com cinco meses de antecedência a negociação salarial. A data-base é junho. "Vamos aproveitar o bom momento e melhorar o reajuste, que ficou 2% acima da inflação em 2009", aposta o presidente da entidade, Valter Souza.

A sede do sindicato é termômetro: ofertas de 50 a 60 vagas diárias demoram a ser preenchidas. São ocupações de pedreiro, eletricista e ferreiro. Souza reforça que a escassez elevou a disputa por trabalhadores. "Há dois e três anos, sobrava gente. Agora é empresa tirando trabalhador de outra." Um engenheiro de uma construtora que ergue projetos do MCMV informa que postos abertos em outubro estão vagos. Mesmo elevando a remuneração por hora em 50% não surge interessado, incluindo pedreiros, função mais simples no setor. O problema é que a obra avança e deve dobrar alocação de operários. "Muitos empreendimentos começarão este ano e aí a situação vai piorar", antevê.


Corrida contra o tempo para formar mão de obra

Treinamento em massa de profissionais seria a forma mais rápida para suprir as necessidades. O Sindicato dos Trabalhadores tem escola de formação, em parceria com o Senai-RS, mas não atende à fila de 1,5 mil candidatos para 500 vagas por ano. A solução é fazer cursos rápidos, completando o treinamento nas obras, com o aluno já contratado. A falta de pessoal gerou engajamentos inusitados, como o da Associação Atlética do Banco do Brasil (AABB) de Porto Alegre. A entidade se credenciou ao projeto Passaporte do Futuro, financiado pela Cooperativa de Crédito dos Bancos Federais (Cooperforte). Resultado: capacitou, no ano passado, 20 jovens de 17 a 24 anos e renda de até três salários-mínimos em funções da construção. "Temos 90% de empregabilidade", comemora Fernanda Andrade, gerente de projetos da AABB local.

Com a fila de inscritos cinco vezes maior para as vagas, a entidade dobrou a oferta, que começa este mês. Outro detalhe: 40% dos alunos são meninas e 100% dos treinados nunca trabalharam. "A partir de abril teremos mais profissionais prontos para suprir as empresas", avisa Fernanda.

Êxito para recrutar candidatos como o da AABB é tudo que Senai e Ministério do Trabalho e Emprego precisam para o programa, lançado em 2008 como Plano Nacional para a Construção Civil (Planseq) e que agora virou Próximo Passo. Trata-se do mutirão para formar quase 10 mil pessoas beneficiárias do Bolsa Família na RMPA. Só que a resistência do público-alvo e a dificuldade de captar inscrições, mostrada em reportagem do Jornal do Comércio no ano passado, frustraram a meta: o Senai-RS conseguiu treinar apenas 500 da sua cota de 5,2 mil.

O restante, quase 5 mil qualificações, é tarefa dos municípios. O diretor regional do Senai-RS, José Zortéa, alega que as inscrições devem ocorrer pelos postos do Sine e que estão sendo reforçadas ações de sensibilização nas comunidades.

O chefe de qualificação profissional da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego, Luiz Müller, aponta o preconceito com as ocupações e desinformação sobre salários como complicadores. "Reunimos as famílias e mostramos que um servente de pedreiro começa ganhando R$ 790,00 e que há emprego garantido após o curso", detalha.


Capacitação de trabalhadores é uma das opções

Integrante do comitê de acompanhamento das obras do PAC no Estado e presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Construção Pesada do RS (Siticepot-RS), Jorge Faleiro, avalia que a atual carência se agravará nos próximos meses. Ele estima que existam hoje 1,5 mil postos vagos em todos os empreendimentos. Faleiro projeta conta maior em poucos meses, citando que os três lotes da BR-448, investimento de mais de R$ 700 milhões, ocuparão 1,2 mil operários. "Até servente, que não é especializado, falta, o que nunca havia ocorrido", surpreende-se o presidente.

A solução ante a escassez é formar pessoal, o que está unindo os dois sindicatos de obras pesadas. Um acordo prevê que a entidade ligada aos trabalhadores forneça local, e o Sicepot-RS, professores. O modelo reproduzirá programas já existentes em canteiros de obras de barragens e hidrelétricas. Há iniciativas em estudo para recrutar e treinar mão de obra entre egressos do sistema penal ou apenados do regime semiaberto. O diretor regional do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial no Estado (Senai-RS), José Zortéa, informa que as escolas gaúchas do órgão treinarão 30% a mais de alunos no setor em 2010. "Se a demanda for maior, estamos preparados para atender", assegura Zortéa.

 

 

Fonte: Notícia da edição impressa de 04/02/2010 do Jornal do Comércio