O gênio maior da arquitetura

 

Oscar Niemeyer: gênio maior

O Globo Revista

O jornal "O Globo" publicou domingo último, 25 de junho, com foto Oscar Niemeyer e chamada de destaque na primeira página, o resultado de uma pesquisa feita entre os jornalistas da casa sobre quem são os cem brasileiros em atividade que podem ser considerados geniais. Oscar Niemeyer foi de longe o mais votado. Na matéria de capa da sua ""Revista do Globo", Marília Martins, editora da revista, registrou, na apresentação da matéria, a eleição de "mestre Oscar Niemeyer, aos 98 anos trabalhando todos os dias para imprimir a marca de sua arquitetura modernista inconfundível pelo Brasil inteiro, pelo mundo afora."

A seguir, a matéria especial publicada pela "Revista do Globo" com o arquiteto e o registro de alguns dentre os mais votados que a ele se referiram.

O PENSADOR DO VÃO LIVRE

Uma idéia simples e a persistência de uma vida inteira em torno dessa idéia. Foi o que fez de Oscar Niemeyer o mais votado pela redação do GLOBO entre os brasileiros geniais. A idéia? A de que arquitetura não é construir paredes e sim projetar curvas e volumes no espaço. Fiel à sua descoberta modernista, que derrubou um modo de pensar herdado do passado colonial, Niemeyer, aos 98 anos, parece mais jovem do que nunca: fala mansa, mente clara, ele trabalha todos os dias no escritório da Avenida Atlântica, mirando Copacabana do alto e tendo a média de cinco projetos por mês. Tem rotina simples e não faz dieta ("Como de tudo, mas como pouco"). Começa desenhando sozinho. "Depois chamo meu grupo, e divido meu salário. E tenho tempo para conversar, ver os amigos". Nesse grupo de trabalho estão netos e bisnetos seus.

Criador de sólidos flutuantes, o homem que, em parceria com Lúcio Costa, projetou a capital brasileira com um baixo salário de funcionário público orgulha-se de haver desafiado o engenheiro calculista José Carlos Sussekind, seu parceiro há 40 anos, a sustentar uma cúpula com 80 metros de diâmetro no projeto do novo Museu Nacional de Brasília, recém-concluído mas ainda não inaugurado, ao lado na nova Biblioteca Nacional.

— Quem vai a Brasília pode não gostar, dizer que há coisa melhor, mas parecida não há. Minha busca na arquitetura é a surpresa. A obra de arte deve provocar a emoção do novo. Por isto, quando revi o projeto do Museu Nacional, mudei o original: passei de 40 para 80 metros de vão.

O novo museu é mesmo surpreendente. Sobre a cúpula suspende-se um mezanino, e sobre ele pousa uma rampa, com 30 metros de balanço, que serve de mirante para a Esplanada dos Ministérios. É uma construção de audácia estrutural incomum.

— Tem um vão livre, sem colunas, seis vezes superior à da cúpula da Basílica de São Pedro em Roma...— ri.

Surpresa na arquitetura, fidelidade na política. Convicto de seu ideário, Niemeyer sonha com a revolução socialista no Brasil.

— Ninguém pode me proibir de sonhar! Deveríamos pensar mais na América Latina. A gente sente que os governos populares estão crescendo... O povo começa a falar. Temos que cuidar da Amazônia, garantir nossa soberania, fazer a reforma agrária. No Brasil, nunca houve igualdade... Mas agora há uma espécie de ódio da burguesia diante da favela, e isso vai criando um clima racista... Estamos num momento terrível...

Apesar do momento difícil, ele aprova o governo Lula.

— Ele tem agido corretamente. Votarei nele de novo — diz.

Sempre misturando arquitetura e política, Niemeyer se anima ao falar da escultura que fez para Havana, em Cuba, denunciando o imperialismo: um enorme dragão, cuspindo fogo sobre um cubano, que se mantém de pé, carregando sua bandeira. A escultura, de escala audaciosa, tem oito metros de extensão, a maior parte solta no ar, devendo resistir aos furacões que assolam a ilha...

Ele não viaja mais de avião, mas sonha ir de navio à Europa. Para 2007, serão construídos cinco projetos, entre eles um monumento à paz em Paris, um centro cultural na Espanha e o novo complexo administrativo de Minas Gerais, com um palácio que marcará o recorde da tecnologia do concreto armado no Brasil. Sua maior ambição, porém, é terminar as obras de sua vida: o Eixo Monumental de Brasília, a Passarela do Samba e o Caminho Niemeyer, em Niterói.

— Brasília está quase pronta... — comenta, esperançoso de ver concluído o Eixo Monumental — As outras obras estão andando. O atual prefeito do Rio não tem sensibilidade... Quando ele sair, a gente conclui o Sambódromo, substituindo o prédio da Brahma por arquibancadas.

No Caminho Niemeyer, o Teatro Popular deve ser inaugurado em setembro, com shows para público interno (500 pessoas) ou externo, na praça (50 mil pessoas). Em seguida virão o Centro BR de Cinema e a Fundação Niemeyer, com acervo digital de quatro mil croquis e cursos livres de arquitetura, filosofia, letras e história.

— A fundação vai dar cursos para completar a formação em arquitetura. Quando me formei, era muito ignorante. Aqui no escritório, temos aulas de filosofia, história, literatura...

Aos 98 anos, Oscar Niemeyer continua um aprendiz.

REFERÊNCIAS

 

Glória Pires, artista consagrada de cinema e TV, diz porque seu brasileiro genial é Oscar Niemeyer: "Acho que a genialidade se expressa na forma como o sonho e a realidade podem estar juntos. O que conhecemos dele, seus ideais humanos e artísticos, sua postura diante da vida, e ainda a projeção do Brasil através de sua própria projeção, me levam a ele", afirma.

 

Leonardo Boff, teólogo e escritor, explica sua escolha de Oscar Niemeyer:
— Sua criatividade como profissional é impressionante, ele tem uma opção mais do que clara pela justiça social, uma grande afirmação pela vida, por sua beleza e sua importância, e amor pelos amigos. Ele se diz ateu. Mas sua verdadeira religião é a amizade.

Francisco de Oliveira, sociólogo e professor emérito da USP, aponta Oscar Niemeyer e diz: 'O mundo se rende à genialidade do nosso maior arquiteto'".

Edino Krieger, compositor e maestro, explica porque, para ele, brasileiro genial é Oscar Niemeyer:
— Ele conquistou um espaço para a cultura brasileira no mundo.