NOTA INTRODUTÓRIA

Em 1962, por apresentação do mestre e amigo Lourival Gomes Machado, começamos a preparar algumas notas sobre Arquitetura para o "Suplemento Literário" de O Estado de São Paulo. Dessa colaboração resultaram alguns ensaios, com os quais procurávamos delinear um quadro de referências básicas para o estudo da Arquitetura no Brasil, revelando um esquema, a partir do qual vínhamos desenvolvendo nossas pesquisas na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Tentando encarar os fenômenos arquitetônicos com a objetividade de uma abordagem científica, tínhamos necessidade de superar os limites das análises de problemas puramente formais, para relacionar a arquitetura com um quadro mais amplo, especialmente com as estruturas urbanas e com as condições de evolução social e cultural do Brasil, isto é, tínhamos necessidade de deixar de encará-la como simples transposição de arquitetura européia, para reconhecer a evolução de suas condições concretas de produção e uso no país.

Assim, os ensaios publicados no "Suplemento Literário" entre 1963 e 1969, alguns deles, com pequenos acréscimos, apareceram em Acrópole, revista especializada em assuntos de arquitetura ~- ainda que tratando de problemas diversos entre si, têm uma linha comum de desenvolvimento. Por isso, talvez, a generosidade de Aracy Amaral e dos demais críticos e artistas, que compõem o Conselho Editorial da Coleção "Debates", conseguiu encontrar interesse em reuni-los sob a forma de livro.

Esse material, agora tratado com roupagem nova, apresenta observações alinhadas ao longo de pesquisas sobre três áreas principais. A primeira série de ensaios procura destacar a interdependência entre os modelos de arquitetura urbana utilizados no Brasil e as estruturas das cidades em que estão inseridos - isto é, o quadro urbano - indicando simultaneamente as diretrizes seguidas pela evolução, no tempo, desse conjunto de relações e as formas que atingem na atualidade, bem como suas perspectivas de desenvolvimento. Esses estudos mostram o jogo complexo das relações entre os espaços públicos e os espaços privados, entre a propriedade e os interesses coletivos, entre as determinações e os limites da criação, focalizando, a partir do lote urbano, temas depois retomados por vários autores e ainda hoje em discussão. O sentido com que foram ordenadas essas observações e as limitações metodológicas do estudo realizado estão indicados em uma nota preliminar da própria série.

O segundo grupo reúne as primeiras conclusões de um programa de pesquisa, ainda em andamento, sobre a arquitetura brasileira no século XIX, que tem contado com auxílios da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. O tema é especialmente interessante, porque permite focalizar as dificuldades do emprego de uma interpretação puramente., ai para a explicação das transformações ocorridas durante aquele período da história brasileira. De fato, à primeira vista a evolução da Arquitetura no Brasil, durante o século XIX, aparece como um conjunto de fenômenos de relativa simplicidade. É fácil perceber, por exemplo, que no início do século, com o processo de independência política, os padrões barrocos, que haviam prevalecido durante o período colonial, são substituídos pelo Neoclássico, que se torna a arquitetura oficial do Primeiro e do Segundo Império, mantendo-se em uso até a Proclamação da República.

Da mesma forma, não é difícil reconhecer que na segunda metade do século, com a instalação das estradas de ferro e o desenvolvimento das cidades, ocorreu uma crescente influência do Ecletismo - estilo que aproveitava as formas arquitetônicas de todas as épocas e de todos os países ~- que passou a predominar a partir da proclamação da República.

Um exame cuidadoso e menos formal, estabelecido com um quadro de referências mais amplo, revela porém que essa evolução é muito mais complexa do que parece e que a história da Arquitetura no Brasil, durante o século ~XIX, é sobretudo a história de um país no qual arquitetos e engenheiros procuram alcançar um certo nível de independência cultural e tecnológica, enquanto as condições econômico-sociais continuam a ser basicamente as mesmas do período colonial.

Por fim, com o trabalho sobre o patrimônio cultural, pretendemos pôr em evidência a importância da utilização mais intensa de nosso patrimônio de arte e história, para a realização de programas culturais criativos, nas regiões mais densamente urbanizadas do país. Ao mesmo tempo, destacamos suas repercussões na integração social das populações dessas áreas e suas conseqüências indiretas para as indústrias do turismo e da cultura. O assunto é analisado a partir das condições culturais que estão ocorrendo na Região Metropolitana de São Paulo mas poderia servir como introdução ao estudo de problemas que já vão ocorrendo em diversas regiões do país, como conseqüência de uma industrialização acelerada. A forma pela qual o problema é focalizado de certo modo complementa a perspectiva crítica estabelecida para o século XIX: no momento em que o país se propõe a construir a sua independência econômica, a cultura e a tecnologia deverão deixar de ser produtos de importação, para serem necessariamente elaboradas em nosso país, para o consumo da própria população.

 

Tanto o conteúdo como a forma de exposição de todos esses trabalhos evidenciam o seu caráter de ensaios, mais do que de obras com tratamento metodológico sistemático. Por isso mesmo, são escritos em linguagem mais simples e mais direta do que a que é usada em trabalhos técnicos e seu tom, consegue ser, às vezes, mais ameno, atendendo aos interesses dos não-especialistas. Por tudo isso acreditamos que sirvam mais à abertura de debates do que ao seu encerramento e favoreçam aquela participação, que afirmamos em um dos capítulos, ser condição da cultura tio mundo contemporâneo. Essa participação se traduz no DEBATE, que é, afinal, o objetivo da coleção dirigida por J. Guinsburg.

Quadro da arquitetura no Brasil